A Jornada em Busca do Parto Normal

Por: Pérola Boudakian
www.educardacerto.blogspot.com
Quando fui convidada a escrever sobre a escolha entre parto normal e cesárea, imaginei diversas abordagens: falar dos aspectos psicológicos envolvidos nesse processo ou uma abordagem mais científica, acadêmica entre outras.
Mas, falar da minha experiência, do processo que estou vivendo me parece mais humano, mais caloroso, assim como todo parto também deveria ser.

Eu estou vivendo a segunda gestação. Na primeira li muito, pesquisei, mas me mantive na linha do senso comum, ou seja, queria muito um parto normal, mas não entendia das fases do trabalho de parto, das intervenções que são realizadas ou da diferença entre um parto normal hospitalar recheado de intervenções desnecessárias e um parto natural.

E assim sendo, fui alvo fácil de um obstetra cesarista. Ele soube desde o primeiro momento que eu desejava um parto normal e se mostrou adepto, disponível e até brincou com o trocadilho “desnecesárea”.
Com 39 semanas e 4 dias ele me pediu que internasse dizendo que o “bebê sairia por cima ou por baixo”, o detalhe é que eu ainda não havia entrado em trabalho de parto, tinha apenas 1 cm de diltação e muitas contrações de Braxton Hicks. Fui para a maternidade acreditando que a indução me colocaria em trabalho de parto. Ilusão. Não senti dor, não dilatei, e fui para uma cesárea, acreditando que era o melhor para mim e para o bebê.
Num momento de medo, de ansiedade, de incertezas, temos a tendência a acreditar naquele que está imbuído de “poder”, ou seja, o médico. E se não estivermos muito abastecidas de informação, esse momento de vulnerabilidade é muito facilmente conduzido, especialmente para os interesses do médico e não da mulher ou do bebê.
A justificativa após a cesárea: cordão no pescoço. E eu acreditei nisso durante muito tempo. Acreditei piamente. E quando alguém dizia que não era motivo, eu olhava torto.
Embora num processo cirúrgico e frio, foi um dos momentos mais lindos, pois eu conheci meu filho e me apaixonei por ele...

Aprender a conhecê-lo nas primeiras semanas exigiu muito de mim, do meu corpo, pois o pós-cirurgico é dolorido, cansativo, deixa a mulher exausta.
Agora, três anos depois, na segunda gestação, a pergunta que não quer calar: posso ter parto normal? Comecei o pré-natal com um obstetra pego sem muitos critérios no livrinho do convênio. Ele super tranqüilo, calmo, mas na quarta consulta errou meu nome, nas outras eu tinha que lembrá-lo de algumas coisas.
Quando perguntei sobre o Parto Normal após cesárea ele disse que é possível, mas queria saber se eu teria mais filhos,pois havia muitas chances de que eu ficasse com a bexiga baixa. Nas outras consultas quando continuei a questionar, ele disse que seria um parto com fórceps por conta da cesárea anterior e com episiotomia, também pela cesárea anterior.

Em determinado momento pensei que seria melhor ter uma cesárea consciente do que passar por um parto normal cheio de intervenções, como fórceps, espisiotomia e tudo mais. Quase me convenci de que seria melhor assim.
Mas me veio uma inquietação e comecei a ficar assustada e preocupada com essas falas do obstetra. O mantra que ele repetia: Não pensa nisso agora, deixa para depois. Quando perguntei a opinião dele sobre termos uma doula, ele respondeu que não sabia o que era isso e perguntou se eu não me referia a uma obstetriz. Foi o estopim da minha cisma.

E foi então que comecei minha saga de pesquisa, de busca, de leituras e encontrei um grupo de pessoas que discutem o parto humanizado. Quando falei destes dois médicos para esse grupo, de cara me disseram que eram cesaristas de primeira.

E comecei a pesquisar, questionar. Ligamos (eu e meu marido) para a maternidade onde esse último obstetra fazia a maioria dos partos e questionamos os índices dele. De 18 partos, 3 apenas tinham sido parto normal.
O que mais me incomoda não é o fato de serem ou não cesaristas, mas de enganarem muitas mulheres com argumentos médicos que conduzem para cesáreas desnecessárias, não permitindo que as mulheres optem de verdade ou saibam dos benefícios reais do Parto Normal, seja este hospitalar ou domiciliar.
A sensação que tenho é de que acordei de um estado de sonolência, onde um jaleco branco me conduzia e conduzia minhas decisões sobre como meus filhos devem ou deveriam nascer.
Argumentos tão sólidos que eu tinha antes ou convicções foram desconstruídas e revistas.

Hoje compreendo que a tricotomia ou raspagem dos pêlos pubianos não é necessária e sei que incomoda demais. Sei que a enfermeira da maternidade deveria ao menos me comunicar que iria me raspar com uma gilete, mesmo vendo claramente que já estava completamente depilada.
Compreendo que não deveria ter sido internada sem ter entrado em trabalho de parto e após ouvir diversas vezes que o colo do útero estava alto e duro quando fizeram repetidos exames de toque, mas que ninguém havia me mandado para casa para esperar o efetivo trabalho de parto.
Sei que o obstetra deveria ter me consultado antes de me mandar para o centro cirúrgico, dialogado comigo acerca das possibilidades que tínhamos.

Aprendi que as intervenções que acreditamos serem rotineiras e “normais” como a episiotomia: “só um corinho”, não são ou não deveriam ser nada rotineiras. Pelo contrário deveriam ser abolidas como processos de rotina.
Cada vez tenho mais certeza de que há uma indústria, corporativista de anestesistas e instrumentadores que precisam das intervenções e que vêem industrializando o parto e o transformando num ato médico ao invés de ser um ato humano. No qual o médico deveria ser expectador desse processo e não ator principal que maneja a mulher.
Hoje consigo perceber que esses obstetras não foram ensinados nas universidades a fazer o parto normal, que não possuem mais habilidade para isso e começaram a listar uma gama de argumentos absurdos para justificar a cesárea: desde alargamento da vagina até indicar o processo cirúrgico como uma comodidade para as mães.
De toda a lista de médicos e obstetras do meu “caderninho” do convênio, apenas três são verdadeiramente adeptas do Parto Normal. Isso assusta e muito, mas é uma realidade da indústria do nascimento.
Felizmente, encontrei uma obstetra que dialoga, que explica e que me incentiva ao parto normal, assumindo decisões de forma conjunta e a diferença é nítida. Hoje, com 30 semanas, me sinto mais segura, mais preparada para esse processo de trazer uma pessoinha ao mundo.
Ter uma doula ao meu lado, foi uma opção que fiz e que acredito que possa me ajudar muito e me deixa mais confortável, mais tranqüila.

Contudo não devemos nos iludir, a maioria das maternidades particulares tem uma taxa mínima de 20% de partos normais contra 80 a 90% de partos cesárea, contrariando as diretrizes da Organização Mundial de Saúde (OMS).
O que pode fazer a diferença numa instituição preparada para o processo cirúrgico é o obstetra. Portanto se estiver com dúvidas, troque, busque e procure profissionais de confiança. Questione sem medos. O parto é seu, é sua vida e de seu filho.

Conhecer alguns sites e blogs fizeram muita diferença e os indico abaixo para pesquisar, xeretar e ler, ler e ler...Ler muito!
http://www.amigasdoparto.com.br/
http://www.bemgerar.com/
http://www.maternidadeativa.com.br/
http://www.partodoprincipio.com.br/
http://www.xoepisio.blogger.com.br/
Dois livros foram fundamentais:
“Parto Normal ou cesárea? O que toda mulher deveria saber (e todo homem também)”
Autoras: Simone Grilo Diniz e Ana Cristina Duarte
Editora UNESP
E
“Quando o Corpo Consente”
Autoras: Marie Bertherat, Thérèse Bertherat e Paule Brung
Editoa: Martins Fonte
Conversar com mulheres que viveram o parto normal, participar de listas de discussão, e-grupos e debater o assunto está sendo excelente e consigo observar uma metamorfose em mim, uma verdadeira transformação que eu acredito que me conduzirá para escolhas conscientes no meu parto.
Dicas muito boas:
Perguntas para fazer na maternidade:
http://www.amigasdoparto.org.br/2007/index.php?option=com_content&task=view&id=256&Itemid=75erguntas
Perguntas para “testar” seu obstetra:
http://www.amigasdoparto.org.br/2007/index.php?Itemid=75&id=261&option=com_content&task=view
Sobre Mitos do Parto Normal:
http://www.despertardoparto.com.br/Home/ArtigosporEleonora/MedoseMitosnoPartoNormal/tabid/121/Default.aspx
Plano de Parto - um grande aliado:
http://www.amigasdoparto.com.br/plano.html
Termino de escrever, hoje com 30 semanas de gestação e acreditando que vivemos uma verdadeira jornada na pela maternidade, que começa sempre com informação e uma busca.
Busca da verdade, da essência e daquilo que queremos. Para o nascer de nossos filhos, para o despertar da mãe, da mulher e de saber, mesmo em tempos tão tecnológicos, deixar a natureza agir e de sabermos que podemos participar ativamente das decisões e do parto.