Home > Cotidiano e Lifestyle > Escolher ou ter escolha?

Na porta de um parque natural, meu fillho mais velho, na época com 4 anos, vê um homem fumando e mais que depressa:

– Eca, mãe! Aquele homem está fumando.
– É Henrique.
– Que feio, né mãe?

Um misto de vergonha por deixar o outro constrangido, um pouco de alívio por ele já saber que é algo que não faz bem. Me senti boba.

– Henrique, algumas pessoas fumam.
– Mas não faz bem mãe e é fedido.
– Sim, mas algumas pessoas gostam e escolhem.
– Mas não faz bem! Por que fumam?
– Porque acham gostoso, porque acostumam. Porque escolhem.
– O tio fuma, né? Mas o vovô e a vovó não fumam mais.
– Sim, seus avós pararam de fumar porque querem viver bastante com saúde.
– É.
– Eu escolhi não fumar porque eu acho que não faz bem. Mas tem gente que escolheu fumar.

Fiquei incomodada.

Mais recente, Henrique com 6 anos, para a irmã:
– Lilô, eu como todas as frutas. Você precisa experimentar mais.

Lilô, com 4 anos, que sempre teve pé atrás com variedade de frutas, responde que não quer.

– Lilô, você quer ficar gorda igual a fulana?
– Não!
– Então tem que comer mais frutas pra não ficar com um barrigão assim, ó. É feio. Né, mãe que a Lilô vai ficar feia?

Fiquei incomodada. Bem incomodada.

– Combinamos de experimentarmos juntos coisas saudáveis para melhorar nossos soldados dentro do corpo, certo?
– E pra ninguém ficar gordão, né? – Henrique bem incisivo.
– Eu não vou ficar gordona nada! – Lilô chorando.

Henrique deu um pedaço de melão na boca de Lilô, que parecia querer provar que podia.

– Mamãe falou de comer bem pra termos saúde e só.
Continuei incomodada.

Um assunto recorrente em casa é sobre comer ou não carne. Eu não como mas todo o restante da família e praticamente todos os amigos comem.
Os dois pequenos sabem da minha escolha e o motivo.

– Mãe, você não come carne porque tem dó dos bichos, né?
– É Henrique.

Henrique já emenda:

– Eu não tenho dó porque esses bichos já estavam velhinhos e iam morrer. Eu gosto do gosto.
– Tudo bem, filho, é uma escolha sua. Mas eu não gosto.

Eu fico incomodada com carne em casa. Fico incomodada por eles comerem mas não terem dimensão de como são tratados os animais, os hormônios. Então, eu mesma não faço. Mas eles comem quando tem oportunidade.
Incomodada.

No fim do ano anterior, tive que fazer escolhas importantes para educação do Henrique, que agora está no primeiro ano. Conversei com bastante gente, ouvi relatos de escolas e não escolas.

– Conte da escola que escolheu pro Henrique.
– Escolhi a X, tem algumas coisas que gostei e outras que sei que fazem parte de um sistema que eu assumi fazer parte. Vamos sentir como será isso para nós. Estamos confiantes, Henrique está feliz também.

Uma pessoa querida que me ouvia, fez uma cara de ânsia, mostrando a língua, dizendo que nem conseguia ouvir sobre esse sistema. Seu filho ao lado emendou que odiava a matéria Y da escola (que foi a que relatei que Henrique se interessava naturalmente).
Fique incomodada.

O que tem em comum essas histórias (e tantas outras que me vieram a mente)? Como todas geraram incômodo?

Ao menos pra mim, vejo em comum a dificuldade na educação dos filhos e na relação humana na distinção entre escolher e ter escolha. Na repulsa pelo que considera-se diferente da escolha pessoal.

O que é mais importante? Fazer a escolha que você considera ser a mais certa ou ter opção, autonomia e capacidade de protagonismo, serenidade pra ter escolha?

Parece não existir diferença, mas há. E isso é tão belo. Isso tem sido tão bacana em observar nos meus filhos e tentar reelaborar dentro de mim.

Será que é tão bonito assim vermos uma criança de 2, 4, 6 anos falar: “Eca esse cigarro”, “Que feio você comer isso”,  só porque é “certo”? Porque é lindo eles serem saudáveis, comerem direitinho, serem “corretos”? Olhe bem para essa criança: ela tem dimensão do que está falando? Como ela construiu essa fala? É uma reprodução, um mini adulto (eu, você) ou ela conheceu o que está falando e construiu sua fala?

Antes de se fazer escolha, tem tanto sentimento bom a ser cultivado! A observação, a empatia (especialmente com a escolha diferente da sua), a experimentação, a escuta e olhar pra si. Entendendo o ponto de vista do outro, entendendo a si, fica tão óbvio que o prazeroso e o realmente significativo é poder ter escolha. É ter maturidade de libertar-se de preconceitos e ter leveza para escolher, para si, naquele momento, o melhor.

Não comer doces porque não pode. Não ficar perto de alguém que fuma porque é fedido. Não comer isso pra não ficar gordo ou feio. É tanto não! Tanto não sem amor, sem empatia, sem razão, com preconceito. Com apenas um ponto de vista.

Escolher o que comer entendendo as necessidades e os prazeres do corpo. Saber o que o cigarro faz, de ruim ou bom, e que isso depende do olhar da pessoa. Não parece mais interessante? Também não parece mais seguro, mais leve?

A proteção de um mundo cruel, dos males dessa vida é tão automático que atropelamos as oportunidades de aprendizado, embutindo valores que são nossos dentro de um ser que ainda é uma folha em branco.

Se também dá insegurança? Sim, claro!

Não quero “mini ativistas” ou “mini eus”. Não quero expectativas. Quero um mundo de oportunidades de escolhas conscientes pra meus filhos e para os outros pequenos. Quero que eles entendam que a base que eles tem recebido é de amor, empatia e que estarei aberta a ouví-los, sem “eca” ou ódio, independente da escolha deles (que aliás, pode ser diferente da minha).

E, dentro dessas histórias que contei, o que nos tem curado é ouvir, algumas vezes nos “debates” entre irmãos: “Mas esse é meu jeito”, “Tudo bem fazer assim, do meu jeito”, “Eu penso diferente e tudo bem”.

Parceria. Assim talvez esses meus incômodos passem. Porque eu também posso aprender com eles como é melhor poder ter escolha e não apenas reproduzir o escolhido.

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