Home > Filhos: A criação > Autismo e a maternidade

Ultimamente tenho refletido muito sobre as diferenças na maternidade que o autismo trouxe para a minha vida. Sim, um filho autista traz demandas diferentes e só elas em si já rendem vários textos… Mas não é sobre estas demandas que eu gostaria de escrever aqui. Até porque elas só vão fazer sentido para outras mães de autistas. E algumas, não todas, porque a diversidade de comportamentos, demandas e desenvolvimento entre eles é enorme! Se você conheceu um autista você conheceu UM autista. Não existe uma caixinha onde a gente coloque todos e possa trabalhar com eles a partir daí. Um é diferente do outro e requer tratamentos, condutas, rotinas diferentes.

Bom, então sobre o que estou escrevendo? Queria aproveitar este espaço e falar o que indiretamente o autismo me ensinou sobre SER MÃE. Mãe no geral, de qualquer criança, com necessidades especiais ou não. E acreditem quando digo, se tem algo que me ensinou a ser uma mãe “melhor” (mais antenada, mais empática, mais carinhosa, e por aí vai…) foi o fato de ter um filho “diferente”. O autismo do Arthur foi pra mim um professor em maternidade que eu nunca tinha encontrado até então, em livros, sites, ou em pessoa.

De todas as mudanças pelas quais passei (que pra mim foram todas para melhor) tem três pontos chave que vou comentar aqui. Três “fichas que caíram” e mudaram simplesmente tudo. Afetaram meu relacionamento com ele, com a irmã mais velha, mudaram a nossa dinâmica familiar e fizeram meus dois filhos florescerem. Porque envolvem amor, respeito, empatia, reciprocidade. Tornou-nos mais leves e mais unidos como família. Aqui estão eles listados e com uma pequena reflexão sobre cada um:

 

  1. Seu filho é um INDIVÍDUO.

As pessoas falam “criança quer isso, quer aquilo”, “criança chora quando precisa disso ou daquilo”, “é assim que ensina x pra uma criança”. Esqueça tudo isso. Não existe UMA criança. Crianças, assim como adultos, não foram feitos numa linha de produção, não saíram todos iguais. São indivíduos, ou seja, cada um tem sua personalidade, suas particularidades. O seu filho vai ter um jeito de ser que é dele. Mais dengoso, ou mais ativo, mais observador, mais quieto. E isso é desde bebê. Ele vai chorar mais ou menos por certo motivo ou outro. Um colo pode acalmar (o Arthur não queria sair do meu) ou às vezes ele pode preferir não estar no colo (com a Sofia era assim). E várias outras coisas. Mas até aí não estamos entrando na questão do autismo. Tem um ponto muito específico no qual quero entrar: como indivíduo seu filho vai ter O RITMO DELE e A ORDEM DELE de se desenvolver. Sim, você deve estar atenta às escalas de desenvolvimento até porque é notando uma saída dos padrões que a gente consegue perceber que algo está estranho e ir buscar um diagnóstico, podendo ajudar nossos filhos o quanto antes (o que, devo dizer, é crucial para o sucesso de qualquer tratamento). Mas seja dentro dos padrões ou fora (já sendo acompanhado pelos profissionais adequados), o seu filho vai ter uma velocidade e uma forma de se desenvolver que é dele. Não tente encaixar ele em padrões, não compare com o irmão, primo, vizinho, filho da sua amiga, etc… Quando saiu o diagnóstico do Arthur eu joguei pro alto todas as tabelinhas e simplesmente passei a perceber do que ele, como indivíduo, precisava. O que interessa mais ele? Em que ordem ele gosta de fazer certas atividades? O que faz ele se sentir mais calmo quando tem uma crise? Comecei então com ele e a irmã este exercício de observação que nos leva ao segundo ponto desta lista…

 

  1. É preciso OLHAR a criança.

Como cada criança é um indivíduo, é preciso parar e OLHAR para ele. Observar seu comportamento, suas reações. E com base neste olhar definir o que funciona, o que não funciona. O que o faz feliz e triste. Como interagir com ele. Toda nossa jornada com o Arthur começou porque ele já ia fazer 2 anos e não comia. Nada. De jeito nenhum. Eu tentava dar, ele tinha ânsia de vômito e não queria nem saber. Estava só no mamá. Todo mundo falava “ah, deixa sem comer que quando bater a fome ele vai aceitar” ou “distrai e coloca a colher na boca correndo” e por aí vai. Mas eu parei e olhei. Eu vi que algo pra ele estava muito errado. Aquela comida estava fazendo mal, ele tinha nojo, não conseguia. Pesquisei muito e descobri que poderia ser um problema sensorial. Levei na terapeuta ocupacional pra ver se era, e foi confirmado. E ela mesma reconheceu nele os traços do autismo, o que levou ao diagnóstico… Resultado: um mês de tratamento e ele começou a comer. Assim, do dia pra noite. Porque era DISSO que ele precisava. Precisamos parar, olhar, observar. As crianças não agem “pra serem chatas” ou “pra te irritar”. Crianças não sabem se comunicar como nós, então elas o fazem pelo comportamento. E elas colocam pra fora tudo o que sentem. Existem especialistas, existem pessoas experientes em cuidar de crianças… Mas seu filho é SEU. Ele tem os seus genes e do seu marido (o que contribui pra vários traços de personalidade), ele vive no seu contexto familiar, na sua rotina. No final do dia é você e mais ninguém quem vai saber quem é esta criança. Como ela “funciona”, como ela reage ao mundo à sua volta, do que ela precisa.

  1. TODA conquista deve ser admirada e celebrada.

Quando as etapas de desenvolvimento padrão vão ficando fora da sua realidade e você não tem mais referência, cada conquista passa a ser um evento grandioso. Como já falei, joguei todas as tabelinhas de padrões de desenvolvimento pela janela há algum tempo, e desde então passei a observar TUDO que o Arthur faz de novo, cada mini evolução no seu dia a dia, no seu jeito de ser, nas interações… Todas as coisas que antes pra mim eram garantidas, eram básicas, viraram mágicas. Cada dia traz uma novidade e com cada uma delas vem um sentimento incrível de superação e vitória. Mas não precisa ser só comigo, só com mães de crianças especiais, só com crianças que não seguem os padrões. Comecei a observar a Sofia muito mais, celebrar cada pequena conquista dela também. Só posso dizer que é um sentimento maravilhoso! Quando a gente olha pra cada coisinha nova, cada mudança com gratidão e admiração a vida deles se torna um espetáculo todos os dias. E não digo isso só para nós. Para eles também. Ao reconhecer e admirar tudo o que se passa com essa criança independente da normalidade em que aquilo se encaixe, estamos passando a mensagem que as pequenas coisas importam. E que eles, seus filhos, importam. Ensinamos a eles a prática da gratidão e reforçamos sua auto-estima.

Pra concluir queria acrescentar que todo este aprendizado, as mudanças, as situações inesperadas me trouxeram apenas uma certeza: que a gente sempre tem o que aprender, o que melhorar. E que somos plenamente capazes quando vamos de coração aberto e com a intenção pura. E na minha experiência pessoal nada me mostrou este caminho de forma tão arrebatadora quanto a maternidade, seja ela “especial” ou não.

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